sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Livros do verão

Não tantos quantos eu desejaria mas mesmo assim, alguns.
Dos quais gostaria de salientar três, por ordem cronológica (da minha leitura e não da sua escrita; que, agora reparo, é precisamente inversa). Tão diferentes uns dos outros e no entanto recomendo-os aos 3, também por motivos totalmente diversos. De modos que vou começar pelo primeiro.

Maddie - A Verdade da Mentira de Gonçalo Amaral.
Pois é. Muito se falou mas eu li-o. Portanto posso falar de posse de todos os dados, à diferença de alguns (muitos) que o fizeram sem propriedade. Primeiro, arrumemos o aspecto literário. Mau. Muito mau. Em termos de qualidade do português escrito consegue ser pior que as traduções do Harry Potter que, diga-se de passagem, por preguiça minha e riqueza da trama, papei integralmente. Gonçalo Amaral não sabe escrever, io! , o que até se perdoa, visto que o homem só tinha obrigação de saber levar uma investigação - e até prova em contrário soube, só foi pena não ter estado no local dos acontecimentos logo no dia 3 de maio - , agora o que não se compreende nem admite é que o editor tenha tido tanta pressa e fuçanga de lançar o livro naquela data que tenha permitido que ele fosse revisto pela funcionária da limpeza (não desfazendo na pobre senhora, que até pode ser mais letrada do que eu ou do que os inúmeros e incontáveis leitores deste tasco, como é óbvio). A ler, portanto, como se o homem estivesse à conversa na tasca, ignorando as vírgulas entre o sujeito e o predicado assim como as constantes inovações em termos de concordância verbal
Agora no que diz respeito ao conteúdo, lamento informar mas não há nada como realmente, já dizia uma amiga minha. E quem não gosta que se aguente. Só tenho a apontar uma lacuna: tentativa ausência de uma tentativa de explicar o desaparecimento do corpo durante aqueles dias todos em que não havia carro, até porque é muito pouco provável que o tenham colocado no dito-cujo carro assim que o alugaram. Ou seja, o cadáver esteve escondido durante mais que os tais 25 dias de que se fala. E no livro do Gonçalo Amaral não se tenta explicar essa parte do mistério.

A Música do Acaso, de Paul Auster
Posso considerar que estou rendida a um escritor quando, assim que termino um livro seu, estou a considerar largar tudo e dedicar-me de vez às (belas-)letras. Foi assim com ele. 'Trilogia de Nova York' foi responsável por uma crise interior como havia muito não sofria quando o devorei em tarde de praia e noite de insónia. Como dormir, aliás, depois de ler um livro daqueles? O Auster consegue ser dos tipos que me desperta maior indizível angústia ao mesmo tempo que, confrontado com algumas das questões existenciais que me desperta, revela ter ideias radicalmente diferentes das minhas (poderá estar mesmo a dizer a verdade? assim parece), o que não deixa de ser estranho para quem cria personagens que por vezes juraria terem ligação directa ao meu cérebro, roubando descaradamente uma belíssima expressão da nossa querida Estrelinha.
Esta 'Música do Acaso' escorrega que é uma maravilha e apanha-nos na curva. Toma lá que já almoçaste. Não era o que querias? Não te podes queixar. Sabias ao que ias, ou não?
Depois não digam que não vos avisei.

A Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires
Last but not the least, um clássico que faltava no meu currículo. E o meu querido BB tem razão quando recomenda a leitura dos clássicos -se bem que talvez seja ousadia chamar clássico a um livro que nem chegou aos trinta, por incrível que possa parecer. Ó BB! ondé que estavas em 1982? Ai, desculpa, não era isto que te queria perguntar. A questão era: os contemporâneos do séc XX já podem ser consierados clássicos?
Mas vamos a ele, ao livro. Resolvi pegar-lhe a propósito da próxima saída de um inédito conjunto de contos dele. Ele é o Cardoso Pires. Os contos, reunidos em "Histórias de Amor" foram editados em Julho de 1957 e retirados um mês depois pela Censura. Alguns deles nunca mais tinham visto a luz do dia.
Vou bem lançada na leitura da Balada e só vos digo: se nunca o leram, é pegar-lhe, senhorias! Há muito que não tinha o prazer de me deliciar com tanta perspicácia, tanta fina ironia, para não dizer grosso sarcasmo, tanta originalidade estilística sem perder a fluidez narrativa. Fantástico, fabuloso, irresistível. Estou a gostar tanto que, assim que o acabar, vou procurar o filme de mesmo nome realizado cinco anos mais tarde por José Fonseca e Costa. Alguém o tem?

1 comentário:

Cristina disse...

Boas sugestões.
Confesso que tenho más recordações da Trilogia do Paul Auster. Deve ter sido a altura em que o li...

Cristina